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Será que é possível a cuidadora alcançar qualidade de vida e bem-estar? (parte 3)

Atualizado: 10 de fev. de 2023


Viver com qualidade e bem-estar é um direito incontestável para quem cuida do outro







"Amor, compaixão e preocupação pelos outros são verdadeiras fontes de felicidade. " (Dalai Lama)


A cuidadora informal converte-se no “profissional oculto” dos cuidados à pessoa idosa, que experiencia consequências diversas que interferem na sua qualidade de vida e bem-estar, bem como na qualidade de vida do idoso a seu cargo (ARAÚJO, 2009). Todavia, a prestação de cuidados informais a pessoas idosas não se reflete somente numa experiência desgastante. Esta pode ser igualmente gratificante e positiva, elevando a relação da cuidadora e da pessoa idosa cuidada para um novo patamar - de amor e de reciprocidade.


A Organização Mundial de Saúde (OMS) define a qualidade de vida como a perceção do indivíduo face à sua posição na vida, dentro do contexto cultural e sistémico de valores no qual vive, tendo em conta também os seus objetivos, expetativas, padrões e preocupações. Esta definição proposta pela OMS é multidimensional e abrange seis domínios globais, nomeadamente: o domínio da saúde física, o do estado psicológico, o dos níveis de independência, o das relações sociais, o do ambiente e o da espiritualidade/crenças espirituais. Para o efeito criou-se um Instrumento de Avaliação de Qualidade de Vida (WHOQOL).


Os fatores preditores de uma melhor qualidade de vida para a cuidadora têm sido amplamente estudados por inúmeras investigações. Aliás, garantir a qualidade de vida do ser humano deveria ser um direito fundamental, arrolado na Declaração Universal dos Direitos Humanos, garantindo a todos o direito de alcançá-la. Uma dessas investigações aponta que uma boa saúde física, um envelhecimento saudável da pessoa cuidada e uma boa condição financeira do agregado familiar são fatores preditores de uma boa qualidade de vida.


Ainda na mesma linha de pensamento, outros estudos revelam que a presença de uma rede de apoio social, uma boa saúde físico-mental e o bem-estar espiritual buscavam igualmente melhorar a perceção da qualidade de vida nas cuidadoras. Os programas de intervenção consagrados às cuidadoras, ainda escassos e pouco acessíveis, são também grandes contributos para maior qualidade no viver. Destacam-se os seguintes programas:

- os de divulgação informativa sobre as doenças geriátricas; os de desenvolvimento de habilidades e de competências para cuidar de pessoas idosas;

- os de apoio à troca de sentimentos e de experiências entre as cuidadoras no âmbito de grupos de suporte; os de acesso à informação e ao encaminhamento de serviços institucionais de suporte;

- os de promoção de períodos de descanso das cuidadoras;

- e os de suporte inovador de capacitação e empoderamento através de mentoria e de coaching transformacional especializado.

Todos eles envolvem um vasto leque de benefícios que promovem melhorias no estado global de saúde e vitalidade da cuidadora e, por conseguinte, contribuem para redução da sobrecarga, diminuindo os níveis de Burnout.





Fatores protetores que atenuam as consequências negativas da prestação de cuidados




Todos sabemos que o “estado ânimo” é algo que impacta todo e qualquer trabalho desenvolvido, seja de forma negativa quando o ânimo é fraco, quer seja de forma positiva quando este é robusto, e no caso da prestação de cuidados não é diferente. Por isso, os estudos salientam dois fatores psicológicos relevantes, a generatividade e conformidade do papel feminino, que impactam positivamente a prestação de cuidados. Vamos, então, abordar estes fatores psicológicos que influenciam um ânimo elevado na cuidadora, proporcionando-lhe um sentimento de bem-estar ao cuidar do seu familiar idoso.


  • A GENERATIVIDADE: como fator psicológico protetor contra a sobrecarga e a sintomatologia depressiva

Corresponde à capacidade em criar novas ideias, produtos, coisas, em prol de promover um maior desenvolvimento da sua identidade, como pessoa, e em investir na sociedade onde se insere. Desta forma, assegura um mundo melhor e mais positivo para as pessoas e instituições que vão deixando para trás no percurso da sua vida. Além desta aptidão para criar está patente também a capacidade de cuidar, seja de pessoas, seja de produtos ou ideias.

O conceito de “generatividade” foi formulado por Erik Erikson, quando desenvolveu a sua teoria sobre o desenvolvimento do indivíduo ao longo da vida, onde o mesmo cunhou a expressão “crise de identidade”. A teoria deste psicólogo e psicanalista é sequenciada por oito estádios psicossociais de desenvolvimento, sendo o penúltimo o estágio da crise de identidade entre a generatividade e a estagnação (que ocorre na meia-idade de um indivíduo, entre os 35 e 65 anos, aproximadamente).


Neste estágio da vida, onde se faz mais presente a generatividade, há um aflorar da virtude social do “cuidado ao outro” seja ele descendente e/ou ascendente, expressada na parentalidade, no ensino, na transmissão de conhecimentos e nas tradições culturais, na liderança e em outras atividades que possam promover um legado positivo do self para o futuro. Esta é a faceta positiva, o lado luz, desta etapa da vida, que é imbuída da necessidade de ser útil, um desejo de cuidar, assistir ou de ser importante para os outros. Aliás, segundo Erikson, a generatividade pode ser um instinto, uma necessidade, uma motivação, uma característica psicossocial ou um traço de personalidade. Enfim, um estádio de desenvolvimento e um critério de adaptação, revelador de maturidade psicológica. Quando esta está presente na vida da mulher, com uma predisposição natural para se adaptar ao papel de cuidadora, a propensão para a sobrecarga emocional fica mais reduzida, mesmo cuidando de pessoas idosas com demências.


Na verdade, a generatividade encontra-se aliada ao bem-estar psicológico (Keyes & Ryff, 1998), pois aquelas que dão apoio emocional aos outros, que sentem mais obrigação cívica, que se preocupam com a saúde e o bem-estar dos outros, apresentam elevados níveis de bem-estar psicológico. Para além disso, sentem maior satisfação com a vida, felicidade, autoestima, equilíbrio de objetivos e sentido de coerência com os seus valores.


Em oposição, quando a vertente negativa deste estágio tem um maior peso na pessoa, tendendo para a “estagnação” e não como fonte generativa, a mulher é conduzida à estagnação nos compromissos sociais, à falta de relações exteriores, à preocupação exclusiva com o seu bem-estar, egocentrismo e posse de bens materiais. E claro, quando acresce na sua vida o compromisso do papel de cuidadora, ela tende a vê-lo como “fardo” e fica mais propensa a sobrecarga emocional/psicológica.


  • A CONFORMIDADE COM O PAPEL FEMININO: como protetor contra a sobrecarga e a sintomatologia depressiva

Há uma relação entre o cuidar e o papel feminino como cuidador (Carvalho, 2007), no âmbito da responsabilidade familiar, uma vez que o “cuidar” é assumido como um dos papéis tradicionais da mulher (Brody, 2004). Por conseguinte, as mulheres idosas tendem a seguir as normas do papel tradicional feminino e arcam, desde logo, o cuidado dos seus cônjuges idosos dependentes.


O mesmo não ocorre com algumas mulheres de meia-idade, que optam mais pelos “novos” valores do papel feminino, nomeadamente, a adoção de papéis mais igualitários entre os homens e as mulheres, focando-se principalmente na sua carreira profissional. Todavia, quando ambos os pais idosos necessitam de cuidados, a mulher/filha de meia-idade apresenta dificuldades na transição entre os valores tradicionais e os novos, que permanecem em competição. Mesmo assim, as filhas cuidadoras acabam por sentir que não estão a fazer o suficiente e culpam-se por isso. Desta forma, apercebem-se que os valores tradicionais relacionados com o cuidar dos pais idosos se sobrepõem aos novos valores do papel feminino. Por isso, quanto mais depressa houver a conformidade com o papel feminino ligado ao cuidar, numa adesão às regras e a padrões sociais impostos, maior é o seu bem-estar psicológico.


Parece que em Portugal, como noutros países, a representação do cuidador recai predominantemente nos familiares do sexo feminino (Carvalho, 2007). Portanto, ser cuidadora informal assenta numa maior conformidade com o papel feminino, funcionando como uma motivação ou pressão social para aderir a esse papel.


Há estudos que vão mais além destes dois fatores protetores, incluindo outros que reduzem, igualmente, o impacto negativo da prestação de cuidados na vida das cuidadoras, sendo estes:

  • O maior nível de habilitações literárias/de qualificações como fator facilitador das relações pessoais e das exigências de ordem física na prestação de cuidados e determinante no reconhecimento de aspetos positivos associados ao cuidar (Lage, 2005);

  • E o maior suporte social, como efeito de alívio face ao nível da sobrecarga da cuidadora e de melhoria na gestão de stress.




6 Estratégias na prática em prol da prevenção do burnout e da conquista de bem-estar e qualidade de vida





Várias investigações realizadas demostram que cerca de 46% a 59% dos prestadores de cuidados estão clinicamente deprimidos, devido ao prolongamento de sobrecargas associadas ao ato de cuidar. Quando as sobrecargas não são geridas estrategicamente pela cuidadora, o caminho progressivo de deterioração e de desgaste da sua própria saúde pode acontecer a nível físico, mental, emocional ou mesmo espiritual, culminando dramaticamente numa viagem sem volta à síndrome de burnout.


Para que tal nunca aconteça, a prevenção é sempre a palavra de ordem. Por isso, há 6 estratégias fundamentais que toda a cuidadora deve ter em conta e adotar na sua vida, nomeadamente:

1. O Autocuidado: nunca se esquecer de si mesma, colocando-se em primeiro lugar;

2. O Autoconhecimento: só se conhecendo é que atinge todo o seu potencial;

3. O Empoderamento: capacitar-se, de acordo com as suas reais necessidades e potencialidades, a conduz ao comando integral da sua própria história de vida (o poder da cocriação da sua própria realidade);

4. O Coping: atuar no palco da vida como gestora das suas próprias emoções;

5. A Espiritualidade: descobrir o seu propósito de vida, através de um olhar maior para o seu Eu interior, num reencontro da essência.

6. Os tempos de descanso: conceder-se a pausas no percurso é promover na sua vida novos recomeços com mais vontade.



Em suma…


Se toda e qualquer cuidadora aplicar na sua vida estas seis estratégias, simples mas poderosas, alcança novos patamares de ser, tornando-se a autora da sua própria história e com um novo sentido de propósito. E, claro, mais empoderada para vencer os desafios no percurso do cuidar do outro.


Pronta para dar esses passos estratégicos na sua vida, para assim conquistar maior bem-estar e qualidade de vida, e simultaneamente prevenir impactos negativos da síndrome de Burnout?


Se é Cuidadora, acompanhe então os próximos artigos sobre estas 6 estratégias detalhadas na prática, que previnem o Burnout.



Teste os seus níveis de qualidade de vida e bem-estar, acedendo à OFERTA - Breve questionário de avaliação da Qualidade de Vida de WHOQOL-Bref. Basta clicar no botão abaixo!


O WHOQOL-Bref trata-se de uma versão abreviada do questionário WHOQOL-100, desenvolvido e recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), onde se valoriza a perceção individual, podendo-se avaliar a qualidade de vida em diversos grupos e situações. Responda a todas as questões, mas no caso de não ter a certeza da resposta a dar em alguma questão apresentada escolha a que lhe parecer mais apropriada. Lembre-se que a melhor resposta é a primeira que surge de imediato na sua cabeça. Tenha em conta para este questionários as suas duas últimas semanas, além dos seus padrões, expetativas, alegrias e preocupações presentes.



imagem de cuidadora com qualidade de vida


Referências Bibliográficas:


- ARAÚJO, Odete (2009) – Idosos dependentes: impacte positivo do cuidar na perspetiva da família. Revista Sinais Vitais. Nº 86, p. 25-30


- BRODY, E. M. (2004). Women in the middle: their parent care years. (2ªEd). New York: Springer Publishing Company.


- CARVALHO, M. I. L. B.. (2007). Entre cuidados e cuidadores: o feminino na configuração da política de cuidados às pessoas idosas. Revista Campus Social, 3/4, 269-280.


- ERIKSON, E. H. e ERIKSON, J. O ciclo da vida completo. Porto Alegre: Artes Médicas, 1998.


- ERIKSON, E. H. Identidade, Juventude e Crise. Rio de Janeiro: Zahar editores, 1976.


- GUERREIRO, M. e CARVALHO, H. - O stress na relação trabalho-família: uma análise comparativa. In WALL, K. e AMÂNCIO, L. - Família e género em Portugal e na Europa. Lisboa: Imprensa de Ciências Sociais, 2007. p. 93-128.


- KEYES, C. L. M., & RYFF, C. D. (1998). Generativity in adult lives: Social structural contours and quality of life consequences. In D. P. McAdams & E. de St. Aubin (Eds.), Generativity and adult development: How and why we care for the next generation (pp. 227–263). American Psychological Association.


- LAGE, I. (2005). Cuidados Familiares a Idosos. In C. Paúl, & A. Fonseca, Envelhecer em Portugal (203-229). Lisboa: CLIMPSI Editores.


- O GRUPO WHOQOL (1995). Avaliação da Qualidade de Vida da Organização Mundial da Saúde (WHOQOL): documento de posicionamento da Organização Mundial da Saúde. Ciências Sociais e Medicina, 41 , 1403-1409.


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